Na reportagem a seguir, Diego Escosteguy, Flávio Tavaresm, Marcelo Rocha e Leandro Loyola contam como foi o safári de lobistas partidários, um amigo de Lula e
outros exploradores. O objetivo: capturar bons negócios para a estatal (e para
eles) na África
Em 19 de abril de 2008, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva desembarcou em Acra, capital de Gana, para uma das 28
visitas diplomáticas que fez à África em seus oito anos no Planalto. Naquela
manhã de sábado, Lula foi recebido no aeroporto pelo presidente ganense, John
Agyekum Kufuor, que lhe entregou flores amarelas, brancas e rosa. Deu
tchauzinhos, passou em revista as tropas, ouviu os hinos dos dois países e
assistiu a um show de danças típicas. Depois da solenidade, seguiu para o
Castle Route, palácio do governo local, para começar a tratar de negócios.
A diplomacia de negócios na África era central à política
externa do governo Lula. Havia um componente ideológico de esquerda na
aproximação com a África. Ele se revelava no desejo de Lula e do PT em ajudar
esses países a superar problemas sociais crônicos. Mas o Brasil também ganhava
muito – e ninguém começou a ganhar mais que as empreiteiras brasileiras. Elas
passaram a ter negócios em 70% dos países africanos. Mesmo que isso
significasse, para os brasileiros, ver Lula apertar a mão de ditadores como
Obiang Nguema, da Guiné Equatorial, que se mantém violentamente no poder há 35
anos, ou do líbio Muammar Khadafi, apeado do poder durante a Primavera Árabe.
Em 90% das conversas, os chefes de Estado africanos pediam a presença de uma
empresa brasileira em seus países: a Petrobras.
Os pedidos faziam sentido. Países como Gana detêm muita
matéria-prima, sobretudo na área de energia, como campos de petróleo e gás, mas
pouca experiência ou recursos para transformar riquezas naturais em dinheiro
para seus povos – ou líderes políticos corruptos. Percebendo isso, o governo
Lula determinou que a Petrobras buscasse oportunidades de parceria nesses
países. Determinou também que o BNDES financiasse os projetos em que
empreiteiras brasileiras tivessem participação.
Na numerosa comitiva que acompanhava Lula em Acra havia
dois convidados especiais. Um deles era o empresário José Carlos Bumlai, um dos
melhores amigos de Lula e então conselheiro da empreiteira Constran. Ao lado de
Bumlai estava Fábio Pavan, lobista da Constran em Brasília – e, naquele
momento, encarregado de conseguir contratos em Gana na área de energia e
biocombustíveis. Pavan ocupava, em Brasília, o cargo que, duas décadas antes,
nos governos de José Sarney e de Fernando Collor de Mello, pertencera a Bumlai:
prestar – e cobrar – favores a políticos que tenham relação com a Constran.
Esse tipo de relação promíscua alimenta há décadas a corrupção no mundo da
política, e não apenas no Brasil. Não é fortuito que, no curso da operação Lava
Jato, a Polícia Federal (PF) tenha descoberto evidências de que a Constran
também participara do esquema de corrupção na Petrobras liderado por Paulo Roberto
Costa, ex-diretor da Petrobras, e Alberto Youssef, um dos principais doleiros
do país. E que contribuíra para campanhas políticas em 2010. A Constran nega as
acusações.
Bumlai é desconhecido fora da política, mas dentro dela é
uma estrela. Tinha livre acesso ao Palácio do Planalto e oferecia churrascos ao
amigo Lula.
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