Para começar a investigar um crime, os detetives de
antigamente costumavam se fazer a mesma pergunta: “A quem interessa?” Ou seja:
“Quem mais tiraria vantagens do crime?”
A pergunta pode ser aplicada também para elucidar ou pelo
menos iluminar outros enigmas.
Por exemplo: por sete votos a três, o Supremo Tribunal
Federal (STF) decidiu fatiar a Operação Lava-Jato, subtraindo poderes do juiz
Sérgio Moro, o comandante da operação até aqui.
Continuarão com Moro somente os processos que tenham
conexão direta e robusta com a roubalheira na Petrobras. Os demais poderão ser
repassados a outros juízes país a fora.
Montar um quebra-cabeça com muitas peças é um desafio
complicado. Torna-se impossível de ser vencido quando faltam peças.
O relator da decisão do STF foi o ministro Dias Tóffili,
ex-advogado de Lula, ex-assessor de José Dirceu, um petista de raiz. Tóffili
desabafou irritado a certa altura do julgamento:
- Há Polícia Federal e há juiz federal em todos os
estados do Brasil. Não há que se dizer que só haja um juízo que tenha
idoneidade para fazer investigação ou para seu julgamento. Só há um juiz no
Brasil?
Não, há muitos. Mas Moro já demonstrou à farta sua
competência na condução do caso e seu rigor na aplicação das leis. Nada mais
precisa provar.
Não existe outro juiz que conheça tão bem como Moro o que
a Lava Jato investiga. Nem que opere como ele em tão fina sintonia com a
Polícia Federal.
Embora sem esse nome, a Lava Jato começou em 2009. E seu
objetivo inicial foi o de apurar lavagem de dinheiro entre empresas ligadas ao
deputado José Janene (PP-PR), que já morreu.
A apuração levou à descoberta de um posto de gasolina, em
Brasília, que lavava dinheiro. E em seguida ao doleiro que fazia a lavagem e
que se escondia sob o nome de Primo.
Por conta do posto de gasolina foi que a operação ganhou
o nome de Lava Jato.
Primo era o doleiro Alberto Yousseff. E foi por meio dele
que se chegou a Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da
Petrobras. O resto é história conhecida.
Portanto, é falsa a afirmação de que a Lava Jato, por
vocação e em respeito ao seu escopo original, deve limitar seu interesse à
roubalheira na Petrobras.
Como desvincular o que aconteceu na Petrobras com o que
aconteceu em outras empresas e órgãos dos governos Lula e Dilma?
Os personagens, em várias ocasiões, foram os mesmos. Os
crimes de igual natureza. E o produto deles serviu ao mesmo propósito – o de
manter no poder quem nele queria se conservar.
A quem interessou a decisão do STF relatada por Tóffili?
Ela foi celebrada pelos advogados de presos, de
ex-presos, de suspeitos e de quem mais receia cair nas malhas da Lava Jato.
Por que? Ora. Seguramente porque aumentam as chances de
eles se darem bem.
No Congresso, ontem à noite, deputados e senadores não
escondiam seu alívio com o enfraquecimento de Moro.
A blindagem da Lava Jato foi rompida pela primeira vez.
Doravante será mais fácil rompê-la sempre que necessário.
Esperem para ver.