A entrevista a seguir foi feita pela repórter Marcela Mattos, da Veja de Brasília. A revista que circula traz outra entrevista e uma reportagem completa sobre o caso. No RS, a mídia diária tradicional não disputa o assunto em uma única linha sequer. Há silêncio absoluto, muito embora a pauta seja a das liberdades públicas e privadas, como também dos direitos humanos. O governo e a ministra Maria do Rosário calam-se diante do escândalo do qual são protagonistas, já que foram desnudados ao praticar novo regime de trabalho escravo, conforme fica visível no contrato divulgado pela dra. Ramona e nas Diretrizes publicadas aqui em primeira mão. Leia os trechos selecionados da entrevista pelo editor. Ao pé da nota a seguir, link com a entrevista completa.
Há uma semana, a médica cubana Ramona Matos Rodriguez, de
51 anos, fugiu da cidade de Pacajá (PA), onde estava desde outubro
trabalhando em um posto de saúde, e viajou para Brasília. Saiu de casa cedo,
levando apenas uma pequena mala com roupas e toda a documentação necessária
para comprovar o que o governo brasileiro sempre escondeu: o contrato
diferenciado firmado com profissionais de Cuba para ingressarem no
programa Mais Médicos, futura bandeira eleitoral de Dilma
Rousseff. Enquanto todos os profissionais recebem 10.000 reais por mês, os
cubanos têm salário de 400 dólares – cerca de 1.000 reais. Segundo ela, há uma
promessa de que outros 600 dólares seriam depositados em uma conta
bancária em Havana – o que Ramona diz não acreditar.
O que mudou em relação à rotina em Pacajá?
É uma
mudança radical. Eu não podia fazer o que estou fazendo aqui, que é me
expressar livremente. Não podia dizer o que sentia ou o que pensava nem com as
duas médicas cubanas que moravam comigo, porque elas poderiam relatar ao nosso
superior. Também não tinha liberdade para sair na rua ou ir para qualquer
lugar. Tinha de pedir permissão para um médico cubano que era um coordenador do
programa. A minha vida em Pacajá era de trabalho, eu trabalhava com muitos
pacientes, era a única médica do posto de saúde, e gostava muito. Aqui estou
tranquila porque estou protegida, mas estou muito ansiosa por tudo o que está
acontecendo. Não consigo dormir. De noite fico muito nervosa, durmo no máximo
quatro horas.
Mas quando a senhora pedia permissão para sair, eles
autorizavam?
Eu nunca pedi porque sabia que não iam autorizar. Não
tinha liberdade de pedir. As cubanas que moravam comigo diziam que se eu
quisesse ir para algum lugar, deveria informá-las para que
pedissem ao nosso coordenador. Não sei qual a relação entre as médicas e o
coordenador, não me interessava, mas não tinha boa relação com elas.
A senhora mantinha contato com sua filha em
Cuba?
Sim, eu telefonava de um orelhão. Aqui em Brasília tenho falado com
ela todos os dias, de uma a duas vezes. Ela me disse que a minha irmã que
morava na minha casa foi desalojada pela polícia e pelo Partido Comunista.
Minha casa era do Estado, eu sabia que isso iria acontecer. Minha filha mora em
outro lugar e conta que eles a visitam todos os dias, perguntam se sabia que eu
desistiria do programa. Ela responde que não sabia nada, o que é verdade.
Desviar o foco (as calúnias lançadas pelo PT contra ela) do quê?
A denúncia que fiz sobre
o salário menor que os cubanos recebem, sobre o tratamento discriminatório
com os médicos cubanos.
A senhora avalia que a sua atitude pode mudar a realidade
dos cubanos que estão no Brasil?
Acredito que sim. Não posso afirmar que
eles vão passar a receber 10.000 reais por mês, isso depende de muita gente.
Mas penso que isso é possível. Eles são médicos e têm os mesmos direitos de
todos. O que me move é a liberdade de expressão, a liberdade de denunciar tudo
isso para que não siga acontecendo com outras pessoas.
Para onde vai o dinheiro que vocês estão deixando de
receber?
Não sei. As pessoas no Brasil dizem que esse dinheiro vai para o
regime cubano, mas nós jamais soubemos dos detalhes do programa.
A senhora já ouviu falar sobre o contrato com a
Organização Panamericana da Saúde (Opas)?
Não. O contrato que
fechamos foi com a Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora. Não sei nem que
entidade é essa. Três dias antes de vir, nos deram o contrato e assinamos.
Quando fui para a Bolívia, não foi por essa sociedade. Foi uma missão médica
humanitária. Esse é diferente, um contrato que eu não sabia com quem eu estava
fechando. O Ministério da Saúde de Cuba que intermediou.
O plano da senhora é voltar para os Estados Unidos?
Meu
plano é ser livre. Agora tenho de trabalhar para me manter. A primeira petição
que fiz foi para ir para os Estados Unidos participar do Parole [programa
que recebe médicos desertores], estou esperando uma resposta da Embaixada Americana que
disse que eu teria de esperar de três a quatro meses.
O ministro da Justiça nega que a Polícia Federal
tenha monitorado a senhora.
Na última terça-feira, recebi um telefonema da
pessoa que me ajudou a fugir e ela me disse que a Polícia Federal tinha ido
a casa dela, que não era a casa que eu morava, porque tinham rastreado as
minhas ligações. Eles disseram que sabiam que eu tinha ligado para ela e que
ela me ajudou a fugir. Os policiais disseram ainda que sabiam onde eu estava e que
viriam me buscar em Brasília. Também acionaram a amiga que me buscou no
aeroporto quando eu cheguei aqui.
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