A mídia comete um erro terrível em relação ao pai e ao menino.
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista. O artigo a seguir foi publicado no site Observatório da Imprensa. o editor tem alertado para a manipulação da opinião pública por parte da polícia e da mídia. Madrasta e cúmplice parecem definitivamente comprometidas, mas não é o caso do pai. A seguir, trechos selecionados. No link, todo o texto.
As cenas domésticas foram gravadas pelo próprio pai, em
seu celular, e capturadas pela polícia, que as forneceu à imprensa, que por sua
vez as divulgou sem pestanejar. Ninguém desconhece essa linha direta que
alimenta o voyeurismo. A fonte – no caso, uma fonte oficial – dá as cartas:
detém as informações e as libera a conta-gotas, conforme seus interesses. A
imprensa adere alegremente a esse jogo, vendendo a história como uma novela, de
modo a criar expectativas para as cenas dos próximos capítulos.
O mais grave, aqui, é que se devassa a intimidade das
pessoas e isso, aparentemente, é considerado perfeitamente normal. Talvez
porque se considere que essas pessoas não merecem respeito, já que teriam
cometido um crime bárbaro. De fato, este costuma ser o comportamento
prevalecente entre os jornalistas: ignorar os limites impostos pelo Direito,
uma vez convencidos da culpa dos acusados.
Mas, neste caso em particular, desrespeitam até mesmo o
menino morto, exposto arbitrariamente em toda a sua angústia e revolta.
Retiram-lhe o direito de preservar sua imagem.
Será possível que ninguém pensou nisto?
Intenção e gesto
A esta aberração se junta outra, muito comum quando as
investigações se transformam em espetáculo: as conclusões automáticas e
precipitadas, por mais absurdas que sejam
(...)
É curioso esse processo que faz as pessoas acreditarem na
literalidade das palavras, como se qualquer um, no calor da hora, não fosse
capaz de rogar pragas ou fazer as mais incríveis ameaças. Como se não houvesse
metáforas nem distância entre intenção e gesto.
Pior ainda: quando a madrasta diz que “teu fim vai ser
igual ao da tua mãe”, o advogado da avó materna de Bernardo conclui tratar-se
de uma evidência de que a mãe do garoto não se suicidou, mas foi assassinada
pelo pai, quatro anos atrás.
(...)
As escolhas certas vão na contramão do exibicionismo no
caso Boldrini. Fazer jornalismo não é ceder à tentação do espetáculo.
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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da
Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos
motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e
Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso
crítico (Editora Revan, 2007)