Em entrevista aos repórteres David Dinis e Rita Siza,do jornal português Publico, Lisboa, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
reconhece que as investigações de corrupção provocaram graves danos para a
imagem do Brasil, mas acredita no funcionamento das instituições e na
regeneração do país.
Leia:
As notícias que nos têm chegado do Brasil, e já há alguns
anos, são de crise económica, crise social, crise política: manifestações,
impeachment, a mega investigação da Lava Jato... Tem andado muito pelo país e
por fora: pensa que isto prejudicou irreversivelmente a imagem do Brasil?
Claro que tem prejudicado. A imagem do Brasil começou a
fortalecer-se quando nós restabelecemos a democracia, acabamos com a inflação e
estabelecemos programas sociais que diminuíram as diferenças de renda no país.
Isso dava a impressão de que o Brasil tinha resolvido os seus problemas. Mas
era uma ilusão. Houve possibilidade de aprofundar o que começou bem, desde a
Constituição de 88 e até ao primeiro Governo do Presidente Lula, mas a uma
certa altura, a partir da crise de 2007 e 2008, tiveram a ilusão de que era
preciso crescer através do aumento do consumo e do crédito, sobretudo público.
E isso criou uma bolha, uma expansão falsa de prosperidade. Quando a Presidente
Dilma foi eleita, ela acentuou esses traços que vinham de antes, a nova matriz
económica. Ela tentou ser mais ortodoxa no segundo mandato, mas as pessoas não
acreditavam e a essa altura já tinham estourado os escândalos de corrupção.
Muito frequentemente diz-se uma platitude: sempre houve corrupção. Mas não foi
isso o que aconteceu no Brasil. Não foi a corrupção individual, foi a corrupção
como instrumento de manutenção do jogo político e do poder. Isso foi novo.
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