Ainda veremos chegar este dia ?
As pessoas hoje me conhecem mais como apresentador de
telejornal e de um programa semanal de debates, mas minha carreira como
jornalista foi sobretudo a de repórter. Meu coração bate repórter; apenas estou
apresentador. Isto é para dizer que não consigo, ao analisar a
realidade em que vivemos, fugir à grande lição que aprendi como repórter: fatos
não são fatos. Fatos são o que as pessoas fazem do que julgam enxergar e viver.
(...)
O fenômeno do discurso populista atual obedece às mesmas
linhas gerais de sempre: contar mentiras que possuem alguma verossimilhança com
a “verdade”, repeti-las à exaustão, apelar ao medo e prometer soluções rápidas
e fáceis.
Quem acabou descrevendo de forma muito contundente o que
acontece na era da revolução da informação (nas “redes sociais”) foi Umberto
Eco, ao dizer que se tratava em boa medida do “empoderamento de imbecis”.
(..)
Aquilo que nós, jornalistas profissionais com opiniões –
mas desvinculados de orientações partidárias e afiliações a grupos de interesse
– consideramos “fatos essenciais” que deveriam em mínima medida ser levados em
consideração por agentes políticos, econômicos e eleitores, não são levados em
conta sequer por boa parte do público.
Ao contrário: frequentemente, a tentativa de
contra-atacar uma óbvia mentira (a de que Lula e Dilma não foram em larga
escala responsáveis diretos pelo descalabro econômico, político e moral no qual
nos encontramos, por exemplo) através de um bombardeio de fatos provoca em
muitos casos a reação contrária. Em outras palavras, contrapor um mito à
realidade dos fatos reforça o mito.
(...)
Mas como, então, enfrentar a narrativa populista na era
da pós-verdade?
Tentando vencer a guerra cultural na qual estamos. Usando
os fatos para descrever o mundo.
O antídoto contra esse tempo perigoso e imprevisível é
agir com a própria consciência.
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