Luis Eduardo Assis, Estadão - Na Previdência, manipulações contábeis não transformam déficit em superavit

Entre nós, a crendice de que a Previdência não gera déficit claramente atende aos interesses de uma pequena – e ruidosa – parcela de apaniguados, que usam suas habilidades racionais para explicar essa irracionalidade.

O apego a crendices econômicas nos levou aonde estamos. Manipulações contábeis não vão nos livrar da imperiosa necessidade de reformar um sistema cuja generosidade é incompatível com nossas condições econômicas. 

A idade média de aposentadoria no Brasil está em 59 anos, ante 72 anos no México, 71 anos na Coreia e 69 anos no Chile. O brasileiro não só se aposenta mais cedo, como ganha mais, relativamente. A aposentadoria média entre nós alcança 86% do salário de quando a pessoa trabalhava, ante 36% no Japão, 42% na Alemanha e 43% nos Estados Unidos. Se, ainda assim, a aposentadoria é baixa, é porque somos pobres. Gastar mais do que podemos não nos deixará ricos.
Há quem diga que a Previdência é uma bomba prestes a explodir. Não é verdade. Ela já explodiu. No ano passado, os benefícios previdenciários alcançaram R$ 507,9 bilhões, o que representa um crescimento de 29% em relação ao ano anterior. O déficit da Previdência praticamente empatou com o déficit primário do governo central. O quadro só não é desesperador, como em alguns Estados, porque o governo federal não tem limitação legal para emitir dívida. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), a dívida pública bruta saltou de 52% no final de 2013 para 70% em dezembro de 2016. A dívida pública está fora do controle, o que aumenta a percepção de risco, eleva os juros e atravanca o crescimento.

A aprovação de um novo regime previdenciário é crucial. Seu adiamento ou a sanção de uma versão mutilada pode custar muito caro. É tempo de esquecer as crendices e de enfrentar a realidade. A conta chegou.

- O autor é economista e foi diretor do Banco Central. E-mail: luiseduardoassis@gmail.com